O Velamento das Imagens na Quaresma
Tradição e Liturgia

O Velamento das Imagens

“O Jejum dos Olhos rumo à Páscoa”

É um dos costumes mais visuais e carregados de simbolismo na tradição católica, gerando admiração em alguns e estranheza noutros. O velamento das imagens altera profundamente a estética das igrejas para sinalizar a gravidade do tempo litúrgico, criando um vazio que nos prepara para a luz da Ressurreição.

Por que cobrimos as imagens?

O objetivo principal deste rito é o chamado "jejum dos olhos". Durante a Quaresma, a Igreja convida os fiéis à penitência e à introspeção. Ao cobrir as imagens, retira-se o consolo visual da beleza das estátuas e das cores vibrantes, focando a atenção da assembleia exclusivamente no mistério da Paixão de Cristo.

Sem a "distração" visual dos santos e dos altares ornamentados, o fiel é direcionado a meditar sobre o Calvário e a humilhação de Jesus. O "vazio" provocado pelo véu roxo simboliza o luto e a ausência de Cristo durante os terríveis dias da Sua Paixão.

O Cristo que se Oculta: No Evangelho tradicionalmente lido no V Domingo da Quaresma (o antigo Domingo da Paixão), diz-se que Jesus «escondeu-Se» ao sair do Templo para não ser apedrejado (Jo 8, 59). O véu sobre os crucifixos representa, de forma palpável, este Cristo que Se oculta e humilha antes do Seu sacrifício final.

As Raízes de um Costume Medieval

O rito do velamento não nasceu da noite para o dia; a sua origem remonta à Idade Média e evoluiu a partir do chamado "Pano da Quaresma" (Hungertuch). Na Alemanha do século IX, surgiu o hábito de estender um enorme pano entre o altar e a assembleia logo no início da Quaresma.

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A Expulsão do Paraíso

Este grande pano separava fisicamente os fiéis do altar e do mistério eucarístico. Simbolizava a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, recordando aos cristãos que, devido ao pecado, a humanidade perdeu o direito de ver a Deus face a face.

Com o passar do tempo, as igrejas tornaram-se maiores e a liturgia evoluiu. Em vez de um único e gigante pano, passou-se a cobrir individualmente as estátuas e as cruzes com tecidos roxos. No século XVII, o rito foi formalizado no Caeremoniale Episcoporum (Cerimonial dos Bispos) e tornou-se prática universal na Igreja Latina até às reformas do Concílio Vaticano II.

Obrigatoriedade e Pastoral Atual

A atualidade deste rito é motivo de debate amigável nas paróquias: há quem concorde fortemente pela sua força catequética, e quem prefira não o fazer. Atualmente, não é uma obrigação estrita, mas uma opção recomendada e valorizada. Segundo a Congregação para o Culto Divino:

  • A Decisão: Cabe à Conferência Episcopal de cada país ou, na sua ausência, ao Bispo Diocesano.
  • O Período: Ocorre habitualmente a partir do V Domingo da Quaresma (entrando no tempo da Paixão).
  • O que cobrir: Cobrem-se as cruzes e as imagens dos santos. No entanto, as estações da Via Sacra e os vitrais não são cobertos.

O Sentido Espiritual: O Véu que Prepara a Luz

Curiosamente, o roxo usado nos véus não serve apenas para indicar luto e penitência, mas também para preparar o nosso coração para a Páscoa:

  • O Contraste Pascal: A beleza da liturgia vive de contrastes. O velamento prepara o impacto absoluto e jubiloso do branco e do dourado que surgirão de rompante na noite da Vigília Pascal, quando os véus caem e a luz regressa.
  • As Cruzes: As cruzes permanecem cobertas até ao fim da celebração da Paixão do Senhor (Sexta-feira Santa), momento em que o madeiro é solenemente desvelado e adorado.
  • Os Santos: As imagens dos santos, nossos intercessores, mantêm-se ocultas até ao início da Vigília Pascal (Sábado Santo), porque o servo se esconde enquanto o Mestre padece.

«Jesus escondeu-Se e saiu do templo.» (Jo 8, 59)

Que este jejum dos nossos olhos purifique o nosso coração.
Fontes: Tradição Litúrgica, Caeremoniale Episcoporum e Congregação para o Culto Divino.

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