Será que Deus foi de férias?
Há um fenómeno que se repete todos os anos nas nossas comunidades com a regularidade quase litúrgica das marés: chega o verão e as assembleias dominicais emagrecem. As crianças desaparecem como se tivessem sido arrebatadas; os catequistas evaporam-se; os escuteiros tornam-se invisíveis; e muitos jovens parecem acreditar que a fé é uma espécie de casaco de inverno — muito útil, mas estritamente sazonal.
Há quem viva a fé como quem vive o calendário escolar: há tempo para tudo, e Deus entra na categoria das "atividades letivas". Quando chegam as férias, a lógica muda para descanso, praia, viagens e noites longas... e Deus é, gentilmente, convidado a aguardar até setembro.
O silêncio de verão: uma ferida pastoral
O silêncio das igrejas no verão tem uma acústica diferente: falta-lhe o rumor das crianças, o tropel dos escuteiros, o entusiasmo dos adolescentes e a presença constante dos catequistas. Esta ausência não é neutra. Fragiliza a transmissão da fé, empobrece a assembleia e instala, sorrateiramente, a ilusão de que a vida cristã é opcional — algo apenas para "quando há tempo".
Vivemos muitas vezes um paradoxo: os escuteiros, que prometem "estar sempre alerta", parecem entrar em modo de hibernação litúrgica; os catequistas, rosto da formação cristã, afastam-se quando a comunidade precisa de testemunho; e as crianças, a quem ensinamos que Jesus é o melhor amigo, passam meses sem O visitar. Não se trata de procurar culpas, mas de reconhecer uma cultura instalada que precisa, urgentemente, de conversão.
Na porta do Sacrário não diz "Volto em Setembro"
A verdade teológica é simples, luminosa e quase catequética: Deus não fecha para férias. Não se vê uma placa na porta do sacrário a avisar ausências. Não há qualquer nota no Evangelho a informar que Jesus suspende a sua graça durante o mês de agosto. Não há pausa na misericórdia, nem intervalo na presença real.
Se Deus não tira férias, por que tiramos nós férias de Deus? Talvez a resposta, algo desconfortável, seja porque ainda não compreendemos plenamente que a fé é uma relação e não uma obrigação; que a Eucaristia é um encontro de amor e não uma tarefa na agenda; e que a liturgia é vida, e não um calendário escolar.
Um convite à alegria e à fidelidade
O verão não tem de ser um deserto espiritual. Pelo contrário, pode e deve ser um tempo de encontro renovado, um autêntico "Pentecostes ao sol". Aproveitemos o abrandar do ritmo, os passeios na natureza e o convívio em família para rezar com mais calma, agradecer a beleza da Criação e procurar a Eucaristia nos locais onde passamos férias.
Quando setembro chegar, as igrejas voltarão a encher-se e as dinâmicas pastorais recomeçarão. Mas lembremo-nos: Deus não regressa em setembro, porque Ele nunca saiu de lá. Fica o desafio, não como uma acusação, mas como um apelo à maturidade da nossa fé: Se Ele permanece fiel e sempre connosco, permaneçamos também nós com Ele.
Votos de umas santas, reparadoras e abençoadas férias para toda a nossa comunidade!
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