Segunda-feira, Terça-feira… A Fé Única que Batizou os Nossos Dias

Já alguma vez parou para pensar porque é que a nossa Segunda-feira, Terça-feira e os dias seguintes se chamam “Feiras”?

É um mistério que nos diferencia de quase todo o mundo ocidental, e que esconde uma história de fé, de rejeição ao paganismo e de fidelidade à tradição cristã que remonta ao século VI!

A Regra do Resto do Mundo: Os Deuses Pagãos

Se falarmos com um irmão de fé espanhol (Lunes, Martes), francês (Lundi, Mardi) ou inglês (Monday, Tuesday), descobrimos que os dias da semana deles têm nomes bem diferentes.

Na maioria das línguas europeias, os nomes dos dias vêm diretamente da tradição romana, associando cada dia a um corpo celeste ou a um deus pagão:

  • Segunda-feira: Dia da Lua (Dies Lunae).

  • Terça-feira: Dia de Marte (Dies Martis).

  • Quarta-feira: Dia de Mercúrio (Dies Mercurii).

  • Quinta-feira: Dia de Júpiter (Dies Iovis).

  • Sexta-feira: Dia de Vénus (Dies Veneris).

Esta é uma herança antiga, mas que a nossa Igreja Primitiva em Portugal e na Galiza quis rejeitar.

A Exceção Portuguesa: O Concílio de Braga (563 d.C.)

No século VI, o cristianismo já estava firmemente estabelecido na região, e o Bispo de Braga, São Martinho de Dume , não via com bons olhos que a comunidade cristã continuasse a invocar, mesmo que linguisticamente, os deuses pagãos nos dias de trabalho.

Martinho de Dume conseguiu que o II Concílio de Braga (563 d.C.) tomasse uma decisão radical para a época: abolir o uso dos nomes pagãos na liturgia e na vida civil.

Mas com que nomes foram substituídos?

A Inspiração: A Semana Santa

A solução veio da tradição litúrgica. Na Igreja, o dia mais importante é o Domingo, o Dies Dominicus (Dia do Senhor), em honra da Sua Ressurreição.

Na Semana Santa (a semana da Paixão e Ressurreição), todos os dias eram considerados “dias de festa” ou “dias de descanso” litúrgico, em latim: Feria.

Assim, a contagem dos dias úteis passou a ser:

  1. Domingo: Dies Dominicus (O Dia do Senhor).

  2. O dia seguinte ao Senhor: Feria Secunda (O Segundo Dia de Festa) → Segunda-feira.

  3. O terceiro dia: Feria Tertia (O Terceiro Dia de Festa) → Terça-feira.

  4. E assim sucessivamente até à Sexta-feira (Feria Sexta).

O Sábado manteve a sua origem judaica no Latim Eclesiástico: Sabbatum (Dia de Descanso ou Shabbat).

Domingo: O Primeiro Dia, ou o “Fim-de-Semana”?

Isto leva-nos a uma das grandes questões do nosso calendário. Se o Domingo é o Dia do Senhor e o dia que inicia a semana litúrgica e a contagem das “feiras”, porque é que popularmente o chamamos de “fim-de-semana”?

Esta é uma questão de cultura e convenção social, não de Liturgia.

O conceito de “fim-de-semana” (weekend em inglês) surgiu com a industrialização e a organização do tempo de trabalho e lazer. A expressão define o período de dois dias de folga (Sábado e Domingo) que se seguem aos cinco dias de trabalho (os dias úteis).

A nossa Igreja, tal como a tradição judaica e a Bíblia, entende o Domingo como o primeiro dia (o dia da Criação e o dia da Ressurreição, que a tudo renova), e a Segunda-feira como o início do trabalho. No entanto, o mundo civil, seguindo normas internacionais e práticas comerciais, adotou amplamente o Sábado e o Domingo como o período de encerramento da semana.

A Lição de Fé: Enquanto a sociedade nos ensina a olhar para o Domingo como o fim do descanso, a Liturgia convida-nos a vê-lo como o início glorioso da nossa vida e da nossa semana, lembrando-nos que é a Ressurreição que dá sentido a todo o tempo.

O Significado para a Nossa Fé

Esta nossa peculiaridade linguística não é apenas uma curiosidade; é um testemunho silencioso da fidelidade da nossa Igreja e dos nossos antepassados.

Sempre que dizemos “Segunda-feira” ou “Quinta-feira”, estamos a afirmar duas verdades de fé:

  • 1. O Domingo é o Centro: Começamos a semana e a contagem a partir do Dia do Senhor, reconhecendo que Ele é o centro do nosso tempo e da nossa vida.

  • 2. Rejeição do Paganismo: Reafirmamos a opção corajosa feita no século VI, purificando a nossa língua de referências que não glorificam o único Deus verdadeiro.

Os nossos dias da semana são, portanto, um convite constante a viver a nossa fé, a lembrarmo-nos da Semana Santa e a darmos glória a Deus desde o primeiro até ao último dia de trabalho.

Que esta pequena reflexão nos ajude a valorizar a riqueza da nossa Tradição!

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