🎄 A Origem e a Difusão do Natal: Compilação Detalhada das Fontes

A celebração do Natal, a festa do nascimento de Jesus Cristo, demorou séculos a ser estabelecida, evoluindo a partir do foco inicial na Páscoa e baseando-se em complexos cálculos teológicos e na rápida difusão litúrgica.

1. 📖 O Foco Inicial e os Registros Evangélicos

As primeiras gerações de cristãos concentravam-se na Páscoa, que comemorava a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor — os momentos decisivos e redentores da vida de Jesus.

  • Conhecimento da Infância: Os detalhes da infância eram escassos, embora Maria os guardasse no coração.

  • Evangelhos: Mateus e Lucas registaram apenas os fatos essenciais com perspetivas diferentes:

    • Fatos Comuns: Jesus nasceu em Belém da Judeia, filho da Virgem Maria, desposada com José, e mais tarde viveram em Nazaré.

    • Mateus: Enfatiza Jesus como o Messias descendente de Davi, cumpridor das promessas, focando no papel de José.

    • Lucas: Centra-se na Virgem Maria e apresenta o Menino como o Salvador prometido, o Messias e Senhor.

2. 📅 A Fixação do Dia 25 de Dezembro

A celebração do aniversário de Jesus não era um costume dos primeiros cristãos, e a data exata não era conhecida. A fixação do dia 25 de Dezembro deu-se a partir do século III, com base em duas linhas de raciocínio principais:

A) O Argumento Teológico-Calculista (A Escolha Cristã)

Esta teoria, considerada mais plausível pelo texto inicial e defendida por Padres da Igreja, liga a data do nascimento à data da conceção e da morte de Cristo:

  1. Princípio da Totalidade: Baseado na mentalidade antiga e medieval, que admirava a perfeição do universo e relacionava a criação com a salvação. Esta ideia tem raízes no Judaísmo (mês de Nisan).

  2. Conceção e Paixão: Afirmava-se que Jesus foi concebido no mesmo dia em que morreu. Num tratado anónimo sobre solstícios e equinócios, é dito que a conceção ocorreu a 25 de Março (8 das calendas de abril).

    • Referência: B. Botte, Les Origenes de la Noël et de l’Epiphanie, Louvain 1932, l. 230-33.

  3. O Cálculo do Nascimento: Contando nove meses a partir de 25 de Março (conceção/encarnação), chega-se a 25 de Dezembro para o nascimento.

  4. Cálculo Bíblico (São João Crisóstomo): Padres da Igreja, como São João Crisóstomo (séc. IV), usaram o Evangelho de Lucas e os turnos de serviço sacerdotal de Zacarias (pai de João Batista) no Templo para determinar a data da Anunciação e, consequentemente, o Natal.

B) O Argumento da Substituição Pagã (Explicação Difundida)

Uma explicação bastante difundida, mas sem provas concretas, sugere a adaptação da festa pagã romana:

  • O Sol Invictus: A partir de 274 d.C., 25 de Dezembro era celebrado em Roma como o dies natalis Solis invicti (o dia do nascimento do Sol invencível), marcando o solstício de inverno.

  • O Paralelo Cristão: A liturgia e os Padres estabeleceram um paralelo entre o nascimento de Jesus e expressões bíblicas como “Sol da justiça” ($Ma 4,2$) e “Luz do mundo” ($Jo 1,4ss.$).

  • São Cipriano de Cartago (séc. III) ecoou esta associação: “Ó, quão maravilhosamente agiu Providência que naquele dia em que o sol nasceu Cristo deveria nascer.”

3. 📜 Fontes Eclesiásticas e a Formalização

A difusão litúrgica do Natal foi rápida, espalhando-se a partir do século IV por todo o mundo cristão.

Fonte/Autoridade Data Contribuição Referência
Santo Hipólito de Roma c. 202–204 d.C. Oferece a alusão mais antiga à data, no seu Comentário sobre Daniel. Hipólito de Roma
Sexto Júlio Africano 221 d.C. Primeiro testemunho indireto da natividade em 25 de Dezembro. Sexto Júlio Africano
Papa Júlio I 337–352 d.C. Atribui-se a ele a formalização do dia 25 de Dezembro como a data do Natal em Roma. Magistério Papal (Séc. IV)
Calendário Filocaliano 354 d.C. Primeira referência direta à celebração em Roma. MGH, IX, I, 13-196. Citação: VIII cal. Ian. natus Christus in Betleem Iudeae
São João Crisóstomo Séc. IV Padre da Igreja que defendeu a data de 25 de Dezembro com base em cálculos bíblicos. Patrística (Séc. IV)

Nota: Enquanto a tradição Ocidental adotou o 25 de Dezembro, a tradição Oriental manteve o 6 de Janeiro como a data da manifestação do Senhor (Epifania).

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